
Uma necessidade de saúde que movimentou a ciência
A obesidade se tornou um dos grandes desafios globais de saúde. Segundo a Organização Mundial da Saúde, 2022, mais de 1 bilhão de pessoas viviam com obesidade no mundo, e a prevalência entre adultos mais que dobrou desde 1990. Esse cenário ajuda a explicar por que universidades, empresas, governos e centros de pesquisa passaram a direcionar cada vez mais conhecimento, recursos e capacidade tecnológica para compreender e enfrentar o problema.
É nesse contexto que tratamentos hoje conhecidos por milhões de pessoas começaram muito antes de chegar às farmácias: como hipóteses científicas, pesquisas laboratoriais, moléculas em desenvolvimento e projetos de longo prazo.
A história dos medicamentos baseados em GLP-1 mostra bem como a inovação evolui por etapas. O desenvolvimento científico permitiu avançar de terapias baseadas na ação do GLP-1 para novas gerações de medicamentos. A tirzepatida, por exemplo, atua simultaneamente nos receptores de GIP e GLP-1, representando uma nova abordagem tecnológica dentro dessa trajetória.
Isso ajuda a desmontar uma percepção comum sobre inovação: raramente alguém tem uma ideia hoje e coloca um produto revolucionário no mercado amanhã. Existe um percurso de pesquisa, testes, erros, aperfeiçoamento, validação e aprendizado acumulado.
O produto que vemos é apenas a ponta do iceberg
Quando alguém olha para uma caneta de aplicação, enxerga um produto relativamente simples. Por trás dela, entretanto, existe uma estrutura gigantesca!
Há pesquisa científica, desenvolvimento da molécula, propriedade intelectual, estudos pré-clínicos e clínicos, processos regulatórios, desenvolvimento do dispositivo de aplicação, capacidade industrial, fornecedores, controle de qualidade, logística e comercialização.
Cada uma dessas etapas envolve projetos, profissionais, orçamento, cronogramas, riscos, indicadores e decisões. É justamente por isso que gestão também faz parte da inovação.
Uma tecnologia pode ser cientificamente excelente e, ainda assim, não chegar ao mercado se não houver capacidade para organizar sua evolução.
Os números dão dimensão desse movimento. Em 2025, as vendas da área de tratamento da obesidade da Novo Nordisk chegaram a 82,3 bilhões de coroas dinamarquesas, crescimento de 31% em moeda constante. No mesmo período, o volume global do mercado de medicamentos GLP-1 de marca para obesidade cresceu 104%.
A concorrência também aumenta o investimento em novas tecnologias. No quarto trimestre de 2025, a Eli Lilly elevou suas despesas de pesquisa e desenvolvimento em 26%, para US$ 3,8 bilhões, impulsionada pelos investimentos em seu portfólio de produtos em diferentes estágios de desenvolvimento.
Esse movimento revela uma característica importante da inovação: quando uma tecnologia abre um novo mercado, ela não encerra a pesquisa. Ela acelera a próxima corrida tecnológica.
Novas moléculas, aplicações, dispositivos, formas de administração, processos produtivos e soluções complementares passam a disputar espaço.
O que essa história ensina às empresas brasileiras?
A principal lição não é que toda empresa precisa desenvolver o próximo grande medicamento.
É perceber que inovação pode surgir de diferentes lugares.
Pode ser um software para saúde. Um dispositivo médico. Uma tecnologia industrial. Um novo material. Um processo produtivo mais eficiente. Uma solução ambiental. Uma aplicação de inteligência artificial. Ou uma melhoria tecnológica capaz de resolver um problema real do mercado.
E boa parte desses projetos pode utilizar recursos de fomento à inovação justamente para dividir o risco associado ao desenvolvimento tecnológico.
Mas acessar esses recursos exige mais do que uma boa ideia. É necessário transformar o desafio em um projeto consistente: definir a inovação, compreender o estágio de maturidade tecnológica, estabelecer metas, parceiros, orçamento, cronograma, riscos e resultados esperados.
Depois da aprovação vem uma segunda etapa igualmente importante: executar.
É preciso acompanhar o desenvolvimento, registrar evidências, controlar recursos, monitorar indicadores e demonstrar que o que estava previsto efetivamente evoluiu.
É aí que a trajetória das canetinhas oferece uma boa síntese sobre inovação:
pesquisa > projeto > recursos e investimento > execução > evidência > mercado.
A ciência abre possibilidades. O financiamento ajuda a viabilizá-las. A gestão sustenta o caminho. E o mercado e a sociedade mostram se aquela inovação conseguiu, de fato, gerar valor.
Inovar não é apenas ter uma ideia ou acessar um edital. É conseguir estruturar e conduzir todo o caminho entre um problema real e uma solução capaz de gerar transformação na vida das pessoas ou das empresas.

