
Às vezes, falar sobre inovação parece nos levar imediatamente a laboratórios, grandes centros de pesquisa, inteligência artificial ou tecnologias altamente sofisticadas. Mas a origem de muitas inovações é muito mais simples: um problema concreto que as soluções disponíveis ainda não resolvem da maneira necessária.
Foi exatamente isso que aconteceu durante a reforma do meu apartamento.
O apartamento é antigo, da década de 70. Fica no centro da capital Vitória. Ele tinha um banheiro grande. Durante a reforma, decidimos dividir esse espaço em dois ambientes: um banheiro social e um banheiro com acesso pelo dormitório transformando-o em uma suíte.
A nova configuração trouxe um desafio. A janela existente, que era voltada para dentro, precisou ser retirada e, pelas características do edifício, não havia possibilidade de criar novas janelas na fachada.
Tínhamos, então, dois banheiros sem ventilação natural.
Começamos a pesquisar alternativas. Pensamos em sistemas de exaustão no forro, tubulação que pudesse ficar escondida no rebaixo de teto, avaliamos produtos existentes e conversamos sobre diferentes possibilidades. Mas nenhuma delas se encaixava completamente nas condições físicas, estruturais, normativas do condomínio e estética do projeto.
Esse é um ponto comum em processos de inovação: o mercado pode até oferecer soluções para o problema, mas nem sempre elas atendem ao contexto específico no qual precisam ser aplicadas.

Quando diferentes conhecimentos começam a se conectar
Foi durante essas conversas que o pedreiro Samuel, responsável pela obra sugeriu o uso de um cobogó. E o Juliano, o outro pedreiro, também apoiou.
A ideia resolvia parte do desafio, mas abriu outra possibilidade.
Minha prima Eliane, designer de interiores que passou a me apoiar na execução da reforma, percebeu que poderíamos desenvolver uma peça específica para aquele espaço que além de ser um elemento vazado que possibilita a passagem de ar espontaneamente, pudesse receber um exaustor elétrico com filtro para possibilitar a remoção do vapor de forma mais eficaz filtrando os possíveis odores. O projeto da reforma foi iniciado pela minha querida arquiteta Jéssica Yamada, que agora mora no Japão.
O projeto do apartamento já utiliza elementos inspirados em colmeias. Surgiu, então, a ideia de desenvolver um cobogó que dialogasse com essa identidade visual e, ao mesmo tempo, incorporasse um pequeno sistema de ventilação.
A partir daí, o que era apenas uma ideia começou a se transformar em projeto.

Da ideia ao protótipo
A peça foi desenhada considerando o espaço existente acima das portas dos banheiros. Na parte frontal, incorporamos a palhinha utilizada em outros elementos do projeto. Internamente, foi criado o espaço necessário para receber o sistema de ventilação.
Mas desenhar uma solução é apenas uma etapa.
Foi necessário envolver outro profissional para preparar o modelo para impressão 3D. Depois vieram a pesquisa dos filamentos, definição de acabamento e cor, identificação de fornecedores capazes de produzir as peças e, finalmente, a fabricação do primeiro protótipo.
O protótipo permitiu verificar dimensões, encaixes e possibilidades de instalação antes de avançarmos para as demais unidades.
E surgiu ainda outra variável: as duas paredes possuíam espessuras diferentes, sendo uma de alvenaria e outra de drywall. As peças precisaram, portanto, ser adaptadas às condições reais de instalação.
Essa sequência é muito semelhante à jornada que encontramos em projetos de desenvolvimento tecnológico:
problema → pesquisa → concepção → desenvolvimento → protótipo → teste → ajustes → validação.

Inovação é combinação
Nenhuma pessoa, sozinha, trouxe a solução pronta.
O profissional da obra identificou uma possibilidade. O design transformou aquela possibilidade em conceito. Outro profissional converteu o projeto para fabricação digital. A impressão 3D permitiu produzir e testar. A própria obra trouxe as condições para validar e adaptar a solução.
Inovação acontece muitas vezes dessa maneira: pela combinação de conhecimentos que isoladamente não resolveriam todo o problema.
É exatamente por isso que falamos tanto em ecossistemas.
Empresas, pesquisadores, designers, engenheiros, universidades, fornecedores e usuários podem ocupar diferentes posições dentro de uma mesma jornada de desenvolvimento.

Uma solução particular pode começar a ter potencial de escala
O primeiro objetivo desse projeto era simples: resolver um problema específico do apartamento.
Mas, depois que uma solução começa a funcionar, surge uma nova pergunta: outras pessoas possuem o mesmo problema?
Apartamentos antigos, reformas que alteram layouts, lavabos sem ventilação e ambientes nos quais não é possível intervir na fachada certamente não são situações exclusivas.
Se houver uma necessidade recorrente, uma solução criada inicialmente sob medida pode evoluir.
Pode ganhar dimensões padronizadas, diferentes acabamentos, sistemas de encaixe mais simples, novas opções de ventilação ou configurações adequadas a diferentes tipos de parede.
Nesse momento, aquilo que nasceu como solução personalizada começa a ser observado como uma possível oportunidade de produto.
Isso não significa que toda boa ideia automaticamente se transforme em inovação comercial. Ainda seria necessário avaliar desempenho, segurança, viabilidade técnica, custos, mercado, requisitos aplicáveis e possibilidade de produção em escala.
Mas é justamente essa investigação que transforma uma ideia em projeto.
É aí que os projetos de inovação entram

Na Poliniza, encontramos frequentemente empresas vivendo exatamente essa situação em uma escala maior.
Elas têm um problema. Desenvolvem uma primeira solução. Percebem uma oportunidade de mercado. Mas ainda precisam transformar aquela percepção em uma jornada estruturada de desenvolvimento tecnológico.
É nesse momento que entram perguntas sobre protótipo, testes, parceiros, pesquisadores, maturidade tecnológica, orçamento, cronograma, propriedade intelectual, mercado e recursos para financiar o desenvolvimento.
Os editais de fomento podem apoiar parte dessa jornada. Mas o recurso é apenas um instrumento.
Antes dele, precisa existir um projeto capaz de explicar qual problema será resolvido, qual conhecimento precisa ser desenvolvido, quais etapas serão necessárias e qual resultado se pretende alcançar.
E depois da aprovação vem outro desafio igualmente importante: gerir essa execução, registrar os testes, acompanhar os marcos, documentar as evidências e aprender com aquilo que não funcionou.
Inovação começa no problema
O principal aprendizado desse pequeno é exatamente esse. Inovação não começa necessariamente quando alguém decide criar uma tecnologia. Ela começa quando alguém observa um problema com atenção suficiente para perguntar:
“Será que existe uma maneira melhor de fazer isso?”
A resposta pode nascer em uma universidade, em uma empresa, em um laboratório ou durante uma reforma! O lugar muda, mas a lógica permanece: problema, conhecimento, colaboração, experimentação e capacidade de transformar uma ideia em algo que funciona no mundo real.

